domingo, 6 de março de 2011

A cachaça e a cobra

Foto Blog Puro Veneno
A cachaça e a cobra
By Marcus Galvão

" O caboclo foi pescar. Tava injuriado, a nega véa só reclamando com os meninos, os meninos numa zoada retada dentro de casa, a sogra dando opinião em tudo, ele ajuntou as coisas, pegou a garrafa de cachaça, as varas, anzol, outra garrafa só por garantia... e a mulher matracando: isso é rapariga, esse vagabundo ta com rapariga e se eu pegar eu corto, eu jogo água quente no ouvido, ah mas ele me paga...ele se picou. Foi pescar.

Passou no bar de Cesão, ali no abc, e o bar por sinal tinha o mesmo nome, BAR ABC, que segundo Jaldão significava Aprenda Beber Cachaça, se era isso mesmo eu não sei, mas que já deu diploma a muita gente, isso deu, eu mesmo comecei na cartilha por lá.

Mas o caboclo passou em Cesão, bateu uma e desceu pro Água Branca, no caminho lembrou das iscas. Aquela mizéra me azoou tanto que eu esqueci as iscas, diacho, pensou. Seguiu caminho, não quis voltar.

Andou um pouco e se deparou com uma cobra com um rã na boca, ele rodeou, cortou uma forquilha com o canivete, encaixou ela por detrás da cabeça da rabuda, pegou a danada e puxou a rã de sua boca. Antes de soltar, numa demonstração de profundo agradecimento, abriu a garrafa de cachaça (Jacó, por sinal ) e despejou um gole graúdo pela goela da rasteira. Seguiu pro rio.

Já estava acomodado numa boa pedra , na sombra, com a rã toda desfiada, o anzol dentro dágua, quase cochilando, só ouvindo o barulho das águas do rio seguindo depressa pra encontrar o Rio de Contas...de repente sente aquela coisa cutucando suas costas, ele se vira e o susto é maior ainda:

Tava lá, na pedra, junto dele, a tal da cobra com outra rã na boca. Ele ficou de pé num pulo só. A rasteira cuspiu a rã nos pés dele e foi se enrolar na garrafa de cachaça, de boca aberta pedindo mais um trago..."

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