sexta-feira, 17 de agosto de 2012

25 anos sem Drummond




25 anos sem Carlos Drummond de Andrade, mineiro e poeta, nascido em Itabira do Mato de Dentro em 31 de outubro de 1902. 
Em Belo Horizonte foi colaborador do Diário de Minas e se formou farmaceutico em 1925 e fundador da "Revista" especializada em divulgar o modernismo no Brasil, mesmo ano em que se casou com Dolores Dutra de Morais, com quem teve sua única filha, 
Maria Julieta Drummond de Andrade. 
Seu primeiro livro foi publicado em 1930 entiltulado Minha Poesia. 
Em 1934 ingressou no serviço público e mudou-se para o Rio de Janeiro, chegando a Ministro da Educação em 1945. 
Poeta consagrado foi traduzido em muitas línguas e faleceu no Rio de Janeiro em 17 de agosto de 1987.

Para homenageá-lo e mostrar seu lado mineiro e sua cachaça, escolhemos esta poesia engraçada, publicada em seu primeiro livro, que registra ainda muito do nosso país e de nossa gente, chamada Explicação.


Explicação

Meu verso é minha consolação. 
Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua, cachaça. 
Para beber, copo de cristal, canequinha de folha-de-flandres, 
folha de taioba, pouco importa: tudo serve.

Para louvar a Deus como para aliviar o peito, 
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos 
é que faço meu verso. E meu verso me agrada.

Meu verso me agrada sempre... 
Ele às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota 
mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota. 
Eu bem me entendo. 
Não sou alegre. Sou até muito triste. 
A culpa é da sombra das bananeiras de meu pais, esta sombra mole, preguiçosa. 
Há dias em que ando na rua de olhos baixos 
para que ninguém desconfie, ninguém perceba 
que passei a noite inteira chorando. 
Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson, 
de repente ouço a voz de uma viola... 
saio desanimado. 
Ah, ser filho de fazendeiro! 
A beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrcgo vagabundo, 
é sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de. 
E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria. 
Aquela casa de nove andares comerciais 
é muito interessante. 
A casa colonial da fazenda também era... 
No elevador penso na roça, 
na roça penso no elevador.

Quem me fez assim foi minha gente e minha terra 
e eu gosto bem de ter nascido com essa tara. 
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa. 
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro 
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente. 
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos. 
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só, 
lê o seu jornal, mete a língua no governo, 
queixa-se da vida (a vida está tão cara) 
e no fim dá certo.

Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou. 
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta? 

 De Alguma poesia (1930)



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